A UFS e o MST

Por José Rodorval Ramalho*

As faces da crise da universidade pública e gratuita brasileira se apresentam em várias dimensões, uma delas é a facilidade com que alguns setores privados se apropriam de seus serviços. Não conseguindo, internamente, regulamentar nossas relações com tais setores e diante do alheamento de sucessivos governos, criamos o melhor ambiente para predadores da coisa pública.

Como o caro leitor receberia a notícia de que a universidade abriu um curso especialmente para os filhos dos latifundiários, para os filiados de alguma Associação Comercial ou mesmo para os militantes de um sindicato de trabalhadores ou empresários? Estranho, não! A Universidade é pública e seus vestibulares devem ser abertos à população em geral. Mas, pasmem, caros leitores! É exatamente isto que a Universidade Federal de Sergipe fará quando promover abertura de um vestibular para o curso de pedagogia especialmente para os militantes do MST.

A estruturação de cursos de graduação com esse tipo de modelo fere, segundo meu entendimento, a concepção de seleção de alunos para a graduação instituída na nossa universidade, tendo em vista que privilegia setores específicos da sociedade facilitando seu acesso com formas de seleção que privam outros cidadãos de concorrerem às vagas oferecidas. Esse tipo de iniciativa é de tal forma discricionário que exclui até mesmo outros trabalhadores do campo, pois somente os ungidos pelo MST é que têm este privilégio. Observamos, aqui, a cristalização de uma concepção corporativa de direitos, criando uma divisão entre cidadãos de primeira classe (os que são capazes de lobby político) e cidadãos de segunda classe (os que não são capazes de lobby político), quando os serviços públicos devem ter pretensões e objetivos universalistas. Portanto, a intenção “generosa” de favorecer alguns, acaba por aprofundar o fosso entre estes e muitos outros. É importante lembrar que esse tipo de anomalia já tem um precedente, na mesma UFS: o curso de agronomia especialmente criado para os tais militantes do MST. Qual será o próximo curso?

Outra questão assaz importante é a natureza do privilegiado parceiro, o MST. Este movimento vem recebendo carradas de recursos públicos desde o governo FHC sob a justificativa da reforma agrária e dos assentamentos. Entretanto, a face tenebrosa deste movimento aparece de maneira muito clara no relatório final aprovado pela Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do Congresso Nacional brasileiro, que encaminhou ao Ministério Público denúncias acerca de uma lista de crimes cometidos, em todo o território nacional pelo MST, que vão desde a formação de quadrilha e o uso ilegal de armas, passando por invasões de prédios públicos e de propriedades rurais e chegando até a malversação de dinheiro público, através de seus “biombos institucionais”, as tais cooperativas.

A análise do prestígio desse grupo junto a sucessivos governos, largos setores da imprensa, inúmeras organizações da sociedade civil e amplos setores da população ficará para outro momento. Mas, é no ambiente universitário que tal prestígio se torna profundamente preocupante, senão sintoma patológico mesmo do ambiente em que vivemos.

Como pode uma universidade pública e democrática conviver, e mais do que isso, manter relações institucionais com um parceiro envolvido com práticas ilegais e antidemocráticas. Um grupo que cultua parceiros políticos como os narcotraficantes das FARC colombianas, os seqüestradores e assaltantes de bancos do MIR chileno, com agressores dos direitos humanos, como Fidel Castro. É incrível que a parceria da Universidade Federal de Sergipe, com um grupo dessa natureza, seja não só naturalizada como envolva muitas energias de amplos setores universitários que vivem a proclamar a ética, a democracia e os direitos humanos como valores fundamentais no nosso espaço público. Tudo bem, essas pessoas também estão defendendo suas complementações salariais, embutidas no “rio de dinheiro público” recebido pelo MST. Mas, será que esses professores não têm uma estratégia mais nobre para complementar seus salários?

Não coloco em dúvida a luta pela reforma agrária, embora me pareça uma questão secundária na extensa pauta de problemas brasileiros, tão secundária que serve apenas de maneira tática para o Movimento em questão, como afirmam os seus próprios líderes em quantas entrevistas suas possam ser lidas. Aqueles pobres coitados que se expõem aos terrores e intempéries à beira das estradas sequer imaginam que não é a luta pela terra que mobiliza essa vanguarda cediça e mefítica do MST e os seus aliados ideológicos espalhados pelas universidades. Essas massas empobrecidas, deserdadas de quase tudo, expressão da ausência de uma ordem social competitiva moderna, servem tão somente como figurantes dessas estratégias homicidas e de suas narrativas patranhas. Nesses scripts orwellianos a novilíngua dos protagonistas transforma bandidos em heróis, criminosos em justiceiros, roubos em expropriações, ódios e cizânias em atos de solidariedade e sonhos totalitários em esperanças de amanhãs luminosos.

Portanto, além dos privilégios pleiteados, totalmente nocivos à universidade pública, é importante que cobremos da universidade mais cuidado nas suas prestações de serviços. Pessoalmente, considero escandalosa a criação de um curso de pedagogia para o MST e absurda uma relação institucional com um grupo que, além de viver à margem da lei, hostiliza o estado de direito democrático e o nega como valor estratégico e mais sólido caminho pelo qual podemos construir uma sociedade próspera e democrática.

PS: Já havia escrito este artigo quando a turba do MST invadiu um laboratório científico e destruiu 20 anos de trabalho dos cientistas envolvidos nas pesquisas. A análise desse tipo de barbarismo, abertamente defendido pelos inimigos da democracia que compõem a cúpula do MST, fica para uma outra oportunidade. Espero, entretanto, que as autoridades judiciárias e militares façam a sua parte e ajam enquanto é tempo.

O autor é Professor da Universidade Federal de Sergipe.

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