Uma nova velha batalha – 2ª parte

Por Augusto Araujo

No primeiro texto listei algumas causas da existência de um pensamento anacrônico na Academia brasileira. Cada comentário abaixo pode render mais páginas de texto, mas penso que estas informações expostas já podem servir como uma introdução ao assunto ou, pelo menos, como um resumo.

1ºA desigualdade social no país.

Uns com muito, outros com nada. Esta observação é a que leva muitas pessoas a questionarem o sistema em que vivemos. Num primeiro momento inclina-se a culpar os que estão, teoricamente, no topo da pirâmide. Há bastante o que se escrever sobre o tema. Para resumir penso que o problema não é a desigualdade em si, afinal de contas não somos clones, somos desiguais em altura, peso, costumes, crenças, etc. Há desigualdade financeira até entre os milionários e multimilionários.

O problema em si é a pobreza e a miséria, e até hoje no mundo quem conseguiu minimizar isto, foi a lógica capitalista, e não por altruísmo ou benevolência, mas sim por sua busca pelo lucro e eficiência.

No Brasil, estamos há pouco mais de uma década num ambiente capitalista de estabilidade econômica, condição sine qua non para melhorias econômicas e sociais. Os governos militares e os dois primeiros da Nova República não souberam optar por um modelo de desenvolvimento sustentável.

A errônea percepção das causas para a pobreza e uma visão extremamente focada numa desigualdade que sempre existirá (até entre os ricos, como falei), fez com que se cultivasse a mitologia esquerdista anticapitalista e esta se entranhou no nosso meio acadêmico, mesmo diante do fracasso em todo lugar do planeta em que ela foi posta em prática.

2ºO apelo emocional simplista inerente de cada pessoa

Independente de qualquer pré-concepção, toda pessoa, ou pelo menos quase toda, tende a simpatizar ou se solidarizar com o lado mais fraco ou, aparentemente, mais indefeso de alguma questão. Isso desde que ela não faça parte de um dos grupos. Ou seja, a pessoa que emite a opinião não pertence ao grupo “mais forte” ou ao grupo “mais fraco”.

Numa alegoria futebolística seria o de perceber que num jogo entre Real Madri e Madureira, a grande massa de pessoas que não são torcedoras habituais de nenhum dos times vão optar, nesse caso, em se torcer pelo Madureira, o mais fraco.

Desta forma os pobres vão ter um suporte de defesa intelectual muito maior e mais aceito do que qualquer um que tenha condições financeiras satisfatórias, independente do mérito ou das razões para isso.

Isto pode ser considerado nobre e humano, mas alguns desvios e exageros nessa visão podem conduzir a erros crassos e mesmos, bestiais e injustos. Desta forma o antigo discurso comunista, agora transvestido de severa crítica anticapitalista me faz lembrar uma fala do francês Alain Besançon:

“O comunismo é mais perverso que o nazismo porque ele não pede ao homem que atue conscientemente como um criminoso, mas, ao contrário, se serve do espírito de justiça e de bondade que se estendeu por toda a terra, para difundir em toda a terra o mal. Cada experiência comunista é recomeçada na inocência.”

3º O regime militar.

O regime militar foi inicialmente claramente anticomunista. Mistura-se aí o argumento dos que dizem que não havia ameaça nenhuma (o que é mentira) e que foi apenas oportunismo e reacionarismo das elites e outros que simplesmente acham que a deposição de Jango foi necessária, mas que o regime militar se alongou demais.

De qualquer forma o regime é visto como de “direita”, contrário à liberdade política e busca por melhorias sociais. Na realidade, o regime militar teve seu lado bom e seu lado ruim.

Contudo no meio acadêmico, que já era dominado por idéias de esquerda, o combate ideológico à ditadura foi constante. O próprio general Golbery estimulou isso com sua teoria da “panela de pressão”, na qual segundo ele, a insatisfação de alguns setores da sociedade poderia ser externada num ambiente que em primeira instância não representaria risco real, e serviria de certa forma para acalmar os ânimos.

O debate acadêmico ficou calado ou monotemático (Abaixo a ditadura!), e com exceção de alguns intelectuais (já contrários ao regime militar, mas não de idéias de esquerda) que se contavam nos dedos de uma única mão, toda massa crítica acadêmica se inclinou à esquerda.

4ºA média da origem social/econômica dos alunos de Humanas, em especial da área de Sociais.

Em geral estes alunos são provenientes da classe média, média baixa e mais recentemente até mesmo da classe C. Os cursos são menos concorridos, com maior facilidade de ingresso e, geralmente, de uma remuneração profissional média um pouco mais baixa.

Soa bem e “pega fácil”, portanto, o discurso marxista de luta de classes e as razões para a existência da pobreza e, mais importante, o porquê de eles próprios não estarem em melhores condições na pirâmide social.

5º A falta de reciclagem dos professores.

Esta talvez seja a mais fácil, pois acomete qualquer curso do ensino superior. Professores que se acomodam e repetem as mesmas aulas e ensinamentos por décadas. Em algumas áreas isso não interfere tanto mesmo, afinal certos setores do conhecimento são imutáveis, contudo a área de Humanas permite várias abordagens. Mesmo que a imparcialidade seja difícil, o mínimo a ser esperado é a pluralidade de pensamento.

O que vemos então são professores repetindo as mesmas aulas da década de 60 e 70, com um capitalismo na vida real que já está a anos-luz do que eles apregoam em salas de aula. Já as críticas ao socialismo/comunismo (que alguns chegam a ardilosamente chamar de capitalismo de Estado) e à social-democracia (que alguns nem sabem do se trata) são superficiais ou inexistentes.

6ºA produção humanística, em geral, é marginal a uma sociedade de consumo.

Esta tese foi citada por Rodrigo Constantino, numa resenha sobre o livro “Ocidentalismo: o Ocidente aos olhos de seus inimigos” de Ian Buruma e Avishai Margalit. Segundo eles, o intelectual médio sente que em uma cultura comercial, o papel dos filósofos e dos literatos é, na melhor das hipóteses, marginal. Os temores e preconceitos afetam as idéias dos intelectuais urbanos, que se sentem deslocados num mundo de comércio em massa, tipicamente moldado nos países ocidentais.

Pode-se observar que a tentativa de muitos intelectuais talvez tenha sido apenas a de contrabalancear em primeira instância alguns sentimentos naturais das pessoas em busca de recursos financeiros e materiais, em detrimento de outros valores da vida.

Alguns que exageraram na “visão crítica”, na tentativa de reformar os homens (como se apenas os intelectuais tivessem a sabedoria para conhecer o caminho da salvação e os verdadeiros interesses individuais) pariram idéias revolucionárias que derramaram oceanos de sangue. As massas foram cobaias desses cruéis experimentos.

Os intelectuais querendo fazer críticas construtivas à sociedade, na verdade prestaram um desserviço à Humanidade. A sociedade de consumo não é algo vil ou meticulosamente planejado, mas sim uma conseqüência natural do crescimento populacional.

Nos antigos regimes comunistas aboliram-se as marcas dos produtos. Havia só um fabricante de xampu, um só tipo de TV, peças de vestuário com pouca variação e por aí vai. O desestímulo à competição e à preferência do mercado, que nada mais é do que o gosto popular teve resultados no mínimo catastróficos.

O livro “O pensamento anticapitalista” de Ludwig von Mises também dá bons subsídios à questão.

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