Abaixo-assinado contra o molestamento ideológico no Colégio de São Bento

COLÉGIO DE SÃO BENTO DO RIO DE JANEIRO

Ao Magnífico Sr. Reitor,
Dom Tadeu de Albuquerque

“Pois esta é a lei das quedas do espírito: primeiro ele perde o bem que possui, mas ao menos se lembra de o ter perdido; depois, quando avança mais longe, acaba esquecendo o próprio bem que perdeu, e, finalmente, não vê mais, nem de memória, o que antes possuía por experiência”. São Gregório Magno

Caríssimo Dom Tadeu,

Os ex-alunos, amigos e admiradores do Colégio de São Bento abaixo-assinados, pressurosos e aflitos com a notícia de fato grave que indica perversão dos princípios que sempre nortearam o ensino nessa veneranda instituição, os quais têm constituído o fundamento da herança espiritual e educacional legada às gerações de filhos que nela estudaram e se formaram, vêm à vossa presença, muito respeitosamente, para relatar a sua tristeza e revolta com o acontecido e rogar sua especial atenção para a clara destruição que ele denuncia.

Foi no presente ano letivo de 2007, na sétima série do chamado ensino fundamental, que se distribuiu, aos alunos da cadeira de Geografia, uma apostila, com o brasão do Colégio de São Bento, a qual faz propaganda da ideologia comuno-marxista em detrimento do sistema capitalista de produção.

Estruturada sob a forma de uma sucessão de quadrinhos, ela é blasfema no significado espiritual, impertinente e medíocre no conteúdo, repulsiva na forma, e subversiva na mensagem moral e pedagógica.

Blasfema

O primeiro quadrinho, encimado pela oração que abre o prólogo do Evangelho segundo São João (“No princípio era o Verbo”), representa a sociedade perfeita, quando o verbo “trabalhar” é conjugado em diversas pessoas, do singular e do plural; a este segue o segundo quadrinho, em que “depois mudou o verbo do princípio”, e “trabalhar” só se conjuga na segunda pessoa, aplicando-se a primeira pessoa ao verbo “lucrar”. Noutro quadrinho, lê-se a notícia do surgimento da propriedade privada, “num momento em que o Criador estava distraído”…

No plano da fé, como conciliá-la com as aulas de religião, a menos que estas se reduzam a uma mera concessão às aparências? Como esperar futuramente coerência, intelectual e sobretudo espiritual, de alunos a que se ensinam “verdades” apoiadas em premissas mutuamente excludentes?

A apostila, como se observa, é explicitamente blasfema e anti-católica. Será preciso lembrar a um professor de nossa casa que o texto do Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo é sagrado? E, se ele não pensa assim, é preciso que saiba que esta é a fé e estes são os valores da imensa maioria dos que elegem o Colégio de São Bento como opção para educarem seus filhos. Foi aqui, neste colégio, onde aprendemos que não se faz troça com o Evangelho; que não se invoca em vão o Santo Nome de Deus; que não se transforma a sacrossanta palavra de Deus em instrumento de baixa propaganda ideológica, ministrada a crianças de 13 anos de idade! “Melhor lhe seria que se lhe atasse em volta do pescoço uma pedra de moinho e que fosse lançado ao mar, do que levar para o mal a um só destes pequeninos. Tomai cuidado de vós mesmos” (Lc 17,2).

Impertinente e medíocre no conteúdo

Não é papel do professor demonizar o capitalismo, descrevê-lo como um regime perverso, não somente porque o juízo é em si falso (o sistema capitalista, como é óbvio, tem aspectos positivos e negativos), mas principalmente porque a sua função é ensinar ao aluno o conteúdo específico da disciplina, e não fazer propaganda ideológica. O que se espera de uma aula de Geografia é uma descrição, fiel e sóbria o quanto possível, do atual espaço geográfico, e, mesmo que o professor venha a lançar mão de categorias marxistas de pensamento, que o faça com elegância e zelo de neutralidade, ciente de que há outras chaves de interpretação dos fenômenos humanos e sociais que não podem ser ignoradas. Ora, na apostila de que se cuida, tudo o que não há é sobriedade, cuidado, respeito pela independência de juízo dos alunos. Trata-se, não de um instrumento de ensino, mas de um panfleto comunista, que busca submeter e subjugar o pensamento de alunos jovens, incapazes de exercer juízo crítico sobre a propaganda que o educador lhes passa como expressão da natureza das coisas.

Repulsiva na forma

Sem dúvida, a eleição dos quadrinhos como estilo literário não foi impensada, guardando relação com o propósito de suscitar no ouvinte reações emocionais, de repulsa ao capitalismo e de amor ao comunismo, próprias da finalidade retórica e de propaganda do texto. Esta crítica já se fez no parágrafo anterior, sendo óbvio que uma abordagem séria da matéria dificilmente se compatibilizará com o estilo adotado. Todavia, os quadrinhos também podem ter beleza, ou, por assim dizer, excelência. Não é preciso que sejam grosseiros, com diálogos pessimamente construídos, desrespeitosos. De que adianta aos alunos aprenderem o português na disciplina que leva esse nome, para o desaprenderem nas apostilas de geografia?

Subversiva na mensagem moral e pedagógica

Quando o professor adota a linha pedagógica de procurar igualar-se ao aluno, exprimindo-se na “sua língua”, ou afetando suscitar-lhe um “pensamento crítico” sobre o que ele desconhece em absoluto (que assim se transforma em pura propaganda, como vimos), o que faz, senão abdicar da missão, que lhe é própria, de educar, de transmitir aos discípulos o tesouro dos seus conhecimentos e experiência, adornado pelo prestígio da autoridade? Que mestre autêntico desce ao nível do discípulo? Como, então, esperar que este se eleve? Nem se contra-argumente com o método socrático, pois nesta apostila, evidentemente, há tudo menos Sócrates, que de resto nunca se curvou à ignorância intrínseca dos discípulos, antes a expôs à luz do sol, para que dela se vissem livres.

Ora, está claríssimo, o que está na base desta triste apostila é a covarde pedagogia da autonomia, tão justamente combatida por Dom Lourenço de Almeida Prado, e que, sorrateiramente, vai contaminando o que ainda resta de são no tecido do sistema educacional brasileiro. De fato, para dar asas a essa pedagogia há muitos colégios, no Rio de Janeiro e no Brasil. Não será preciso que o Colégio de São Bento venha imolar-se no altar da pseudo-modernidade, até porque, como aprendemos, segundo manda a Santa Regra, nihil Amori Christi præponere.

Tudo isso, caríssimo Reitor, não teria a gravidade que tem, se não fosse sintoma de uma provável fissura ou mesmo fratura, estas sim gravíssimas, no antes intacto corpo de princípios, católicos, tradicionais, que sempre informaram a educação no Colégio de São Bento, e que fizeram dele a instituição de ensino fundamental e médio mais respeitada do país.

“Ninguém pode servir a dois senhores, porque ou odiará a um e amará o outro, ou dedicar-se-á a um e desprezará o outro” (Mt 6,24). A Igreja, firme no primado de Cristo, sempre condenou o comunismo como uma ideologia infame, contrária à verdade e à lei natural, intrinsecamente má e mesmo diabólica (Pio IX, Qui Pluribus, Syllabus; Leão XIII, Quod Apostolici Muneris; Pio XI, Quadragesimo Anno, Divini Redemptoris; Pio XII, Decretum contra Communismum; João Paulo II, Centesimus Annus). Recentemente, o Santo Padre João Paulo II, na Encíclica Centesimus Annus, diz ser “preciso acrescentar que o erro fundamental do socialismo é de caráter antropológico (…) o homem é reduzido a uma série de relações sociais, e desaparece o conceito de pessoa como sujeito autônomo de decisão moral”, para em seguida lembrar que “a cultura e a práxis do totalitarismo comportam também a negação da Igreja”.

Logo, o fato de a apostila de geografia, ao fazer a apologia do comunismo, ridicularizar o Evangelho e invocar em vão o Santo nome do Senhor, não é um acidente, ou uma casualidade que se possa atribuir à ignorância do professor, mas, muito ao contrário, constitui o corolário natural de uma doutrina e de uma pedagogia que não são de Cristo.

Evidentemente, quando um professor de geografia movimenta-se com esta desenvoltura e despundonor no nominalmente católico e tradicional Colégio de São Bento, impõe-nos a consciência que denunciemos claramente o fato, na certeza de que os elementos de sanidade e estabilidade do Colégio, radicados no amado Mosteiro de São Bento, saberão apurar seriamente as circunstâncias e corrigir os erros existentes (auferte malum ex vobis), e reconduzir a instituição de ensino aos caminhos abertos por sua veneranda tradição: conduzir os seus filhos na Procura de Deus.

A visão da apostila é ainda muito mais eloqüente do que esta exposição, e por isso a anexamos à presente carta.

Encerrando estas considerações, com o respeito e admiração que devotamos ao Reitor do nosso amado Colégio de São Bento, por tudo que ele sempre representou para todos os seus filhos, rogamos a Deus que vos abençoe e ilumine na apreciação da grave denúncia, ora levada ao vosso conhecimento no intuito de proteger o Colégio contra a miséria a que o condenariam os fundamentos e princípios que estão na base da funesta apostila.

Os abaixo-assinados,

NOMES E ASSINATURAS

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