Cerco ideológico no Instituto Dom Barreto, de Teresina-PI

Defendendo os filhos dos outros, o coordenador do ESP, Miguel Nagib, denuncia a prática de doutrinação ideológica num dos mais tradicionais e conceituados colégios do Piauí (texto publicado originalmente em 12.04.2009).

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Não é preciso assistir a uma aula de História no Instituto Dom Barreto (IDB), de Teresina, para fazer uma idéia do cerco ideológico a que estão sendo submetidos os alunos dessa conceituada instituição de ensino piauiense: basta visitar a página da coordenação da disciplina de História, no site do colégio (clique aqui), e dar uma olhada nos textos ali oferecidos à reflexão dos estudantes. São eles:

– A utopia de Betinho (texto de autoria de Betinho, intitulado “O elefante e o beija-flor”);- Betinho: uma vida dedicada aos mais humildes (texto de autoria de Betinho, intitulado “Um dia a vida surgiu na terra”. Trecho: “a Terra é bem planetário, não pode ser privilégio de ninguém, é bem social e não privado, é patrimônio da humanidade, e não arma de egoísmo particular de ninguém.”);

– Uma comovente história de natal (texto de autoria de Lula Miranda, intitulado “Uma história de Natal”. Trecho: “O Natal é uma efeméride que deveria servir como uma espécie de marco para um certo renascimento em todos nós, pois marca a celebração do nascimento de um homem bom, de um revolucionário.”);

– Saudade dos tempos imemoriais (texto de autoria de Frei Betto. Trecho: “Todas as crianças imitam adultos que admiram, mas nem todas aprendem a conhecer Jesus e Francisco de Assis, Gandhi e Che Guevara, e crescem empolgadas com o exterminador do passado, do presente e do futuro.”);

– O outro lado da história (texto de autoria de João Pedro Stédile, intitulado “Na Ruta del Che”. Trecho: “Fomos [a La Higuera, cidade boliviana onde foi morto Che Guevara] dizer que continuamos com seu compromisso de seguir a mesma luta. Lutar todos os dias contra o analfabetismo, a desigualdade, a exploração, o colonialismo, a corrupção, o imperialismo e as transnacionais que continuam vindo aqui roubar as nossas riquezas naturais, agora na forma de soja, minério de ferro, etanol, sementes, água, etc.”)

– Fidel X Bush (texto de autoria do próprio Fidel Castro. Trecho: “Senhor Bush: o seu bloqueio genocida, o seu apoio ao terrorismo, a sua lei assassina de Ajuste Cubano, a sua política… [blá, blá, blá…], tudo isso deve cessar.”)

– O caso do biógrafo de Che Guevara (mensagem de Jon Lee Anderson, biógrafo de Che Guevara, a Diogo Schelp, da revista Veja, desacreditando a reportagem sobre Che Guevara.)

– A internacionalização do mundo (texto de autoria do senador Cristóvão Buarque sobre a internacionalização da Amazônia);

– A pobreza dos ricos (texto de autoria do senador Cristóvão Buarque, atribuindo aos “ricos” a responsabilidade pelos problemas do país – pobreza, criminalidade, falta de escolaridade, de saneamento básico, de saúde, etc. Trecho: “Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.”);

– Acorda Brasil (mais um texto de autoria do senador Cristóvão Buarque, denunciando por atacado as mazelas sociais, econômicas e políticas do Brasil, como se ele próprio – que além de senador, já foi reitor de uma grande universidade, governador do Distrito Federal e Ministro da Educação do governo petista – não tivesse nada a ver com elas); 

– Che (texto de autoria de Emir Sader. Trechos: “Há personagens com uma tal estatura histórica que, independente dos adjetivos e de todos os advérbios, ainda assim não conseguimos retratá-los em nada que possamos dizer ou escrever. O que falar de Marx, que permaneça à sua altura? O que escrever sobre Fidel? … O Che é um destes personagens cósmicos. … O Che veio para ficar. Novas gerações, nascidas depois da morte do Che, continuam identificando-se com sua imagem, com seu sentimento de rebeldia, com sua coragem, com sua luta implacável contra toda injustiça.”)

– Saber é poder (texto de autoria de Max Luiz Gimenes – que se define como “militante do PSOL” – sobre a crítica de Ali Kamel ao livro-didático “Nova História Crítica”, de Mário Schmidt. Título: “A ‘Nova História Crítica’ e a crítica da velha elite”. Trechos: “Em um artigo repugnante – que mais parecia um choramingo direitista – …, Ali Kamel dedicou-se a atacar o livro “Nova História Crítica – 8ª série”, de Mario Schmidt. … Ah, a liberdade. Fundamento tão citado como a principal qualidade da sociedade capitalista. Mas que liberdade é essa, senão a plena liberdade de se calar e obedecer às predeterminações da fraterna e intuitiva elite política e econômica? Pois é. A elite determina, o povo cumpre e a roda da história continua a girar. É assim que prega a hipócrita e pretensamente democrática cartilha liberal-burguesa.”)

– Coordenação de História faz reflexão sobre texto da revista Veja (apesar do título, o que se vê é um artigo assinado por Celso Lungaretti, intitulado “’Veja’ mira Guevara e dá tiro no pé”. Trecho: “É o mesmo raciocínio tortuoso que a extrema-direita utiliza para tentar fazer crer que a morte de seus dois únicos e involuntários mártires (Mário Kozel Filho e Alberto Mendes Jr.) tenha tanto peso quanto a de quatro centenas de idealistas que arriscaram conscientemente a vida e a liberdade na resistência à tirania, confrontando a ditadura mais brutal que o Brasil conheceu.”);

– 40 anos depois: Che Guevara ainda incomoda? (texto de autoria de Gilberto Maringoni: “Che Guevara e os mimos da família Civita”. Trechos: “Os Civita detestam tudo que cheire a povo. Externam especial repulsa por coisas como Cuba, Venezuela, MST e quejandos. … Os Civita gostam de dinheiro, poder e publicidade oficial, da qual suas revistas andam cheias.”)

A julgar por essa amostra, não há dúvida de que os professores de História do IDB estão empenhados em “fazer a cabeça” dos seus jovens e inexperientes alunos. Como se vê, a única visão de mundo apresentada aos estudantes é a da esquerda militante, mais ou menos radical, destacando-se, no conjunto, a preocupação obsessiva com a boa fama do ícone comunista “Che” Guevara, a indicar o quanto esse personagem deve ser idolatrado pelos professores e, consequentemente, também pelos alunos.

Betinho, Lula Miranda, Frei Betto, João Pedro Stédile, Fidel Castro, Cristóvão Buarque, Emir Sader, Max Gimenes, Celso Lungaretti e Gilberto Maringoni – TODOS os autores dos textos selecionados são de esquerda. Mas é claro que os alunos não sabem disso. Pensam, na sua imaturidade e falta de conhecimento, que se trata de observadores isentos da realidade. Não imaginam, de resto, que seus professores sejam capazes de manipular as fontes de informação com o objetivo de cooptá-los política e ideologicamente.

Por outro lado, os adversários ideológicos da esquerda são estigmatizados, para que os estudantes aprendam a reconhecê-los como “inimigos da humanidade”, e deles de afastem, quando menos em público, por medo de patrulhamento.

Os sites recomendados pelos professores seguem a mesma linha ideológica. Entre os de atualidades, o do Le Monde Diplomatique Brasil e os das revistas Caros Amigos e Carta Capital; mas não o da revista Veja ou de qualquer outra publicação menos identificada com a perspectiva esquerdista – ou governista, como queiram. Entre os blogs ou sites pessoais estão os de Paulo Henrique Amorim, Franklin Martins e Luis Nassif, mas não o de Reinaldo Azevedo, João Pereira Coutinho ou – anátema! – Olavo de Carvalho.

Em suma, o cerceamento da liberdade de aprender dos estudantes não podia ser mais evidente.

Como poderão os alunos do IDB adquirir uma visão abrangente da realidade se as pessoas encarregadas da sua educação lhes sonegam todo e qualquer acesso às correntes de pensamento que não se situem à esquerda do espectro ideológico?

Na mensagem do escritor Jon Lee Anderson há uma frase sobre a qual, muito mais que os alunos, os próprios professores e a direção do IDB deveriam refletir:

“Jornalismo honesto envolve fontes variadas e perspectivas múltiplas, uma tentativa de compreender a pessoa sobre quem se escreve no contexto em que viveu com o objetivo de educar seus leitores com ao menos um esforço de objetividade.”

Se isto vale para o jornalismo, há de valer, com muito mais razão, para a atividade à qual se dedicam os professores do Instituto Dom Barreto. 

Miguel Nagib

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