RJ: Estado tem a primeira transexual a exercer função de comando em escola

Notícia publicada no site do governo do Estado do Rio de Janeiro, em 26 de fevereiro de 2014. Leia, abaixo, o comentário do ESP.

Após oito anos dedicados à docência no Colégio Estadual Max Fleuiss, na Pavuna, Julia Dutra, de 33 anos, passou a ocupar o cargo de diretora-adjunta da unidade, em 2013. O que seria uma promoção usual no sistema de ensino, tornou-se pioneirismo no Rio de Janeiro: Julia é a primeira transexual a exercer uma função de comando em uma escola da rede estadual. Formada em Educação Artística na UFRJ e com especialização em Artes Visuais, a docente – que sempre difundiu o interesse pelo teatro, música, literatura e artes plásticas entre os alunos – destacou-se por sua competência e dedicação em sala de aula. De quebra, virou exemplo de sucesso na luta contra o preconceito e a homofobia.

– Posso dizer que essa conquista foi fruto de muito estudo, trabalho e amor à profissão. O fato de ser transexual nunca atrapalhou meu trabalho como educadora. Espero que minha trajetória profissional sirva de estímulo para que outros transexuais e homossexuais se dediquem aos estudos, melhorem sua autoestima e busquem seu espaço – afirmou Julia, que assumiu a identidade feminina há um ano e já deu entrada no pedido de alteração de seu nome nos documentos.

A diretora-adjunta também diz não sofrer rejeição por parte dos alunos e dos funcionários da escola, que oferece Ensino Médio Regular noturno e, atualmente, conta com cerca de 400 estudantes. Para ela, ter um bom desempenho à frente do colégio afasta qualquer preconceito.

– As pessoas reconhecem o trabalho que construí ao longo dos anos. Sempre promovi peças de teatro na escola, saraus literários e musicais, e incentivei a participação de alunos em festivais de esculturas e artes, em geral. Também me esforço para, cada vez mais, promover melhorias na qualidade de ensino da escola e isso é o que importa. Na verdade, só tive problemas uma vez quando um parente de uma aluna se recusou a falar comigo por eu ser transexual. Mas o caso foi uma exceção. As pessoas me respeitam e valorizam meu trabalho – diz Julia.

Para o coordenador do Programa Rio Sem Homofobia, da Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos, Cláudio Nascimento, o destaque de Julia contribui para a quebra de estigmas e tabus na sociedade.

– Ter a Julia nessa posição ajuda a quebrar tabus e faz dela um exemplo vivo positivo, mostrando que é possível construir um mundo diferente, com menos preconceito. Mostra também que essas mulheres são capazes de assumir cargos de chefia e liderança. Estaremos juntos com ela, prestando todo o apoio no que for necessário – concluiu Cláudio.

Comentário do ESP: A secretaria de educação (ou a direção da escola) agiu com inteligência nesse caso. A presença da professora transexual em sala de aula devia estar gerando problemas sérios de indisciplina entre os alunos (todos adolescentes). O que fez a secretaria? Arranjou uma “promoção” para tirar o transexual da função de docente e colocá-lo numa função administrativa. Ou seja: resolveu o problema de indisciplina e ainda foi notícia politicamente correta na página do governo do Estado. Jogada de mestre.

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