Por Miguel Nagib
Em setembro de 2003, decidi escrever ao professor de História de minha filha, que cursava a 8ª série, no Colégio Sigma, em Brasília, uma carta aberta, contestando a comparação que ele havia feito em sala entre o guerrilheiro comunista Ernesto “Che” Guevara e São Francisco de Assis, e aproveitando para denunciar o facciosismo político-ideológico de suas aulas.
Escrevi a carta e, depois de entregá-la ao professor, à orientação e à direção, distribuí uns trezentos exemplares a pais e mães de alunos na frente do colégio.
Como já era esperado, nada aconteceu. Um dos diretores do colégio, Prof. Ronaldo, que me convidara para uma conversa, dizendo-se surpreso quando lhe informei que alguns de seus professores faziam propaganda política e doutrinação ideológica em sala de aula, negou, simplesmente, a veracidade das minhas afirmações. Ao que parece, não tomou qualquer providência, ou, se tomou, não me informou de coisa alguma. O mais grave, porém, foi a reação dos pais. Ou melhor: a não reação, já que nenhum deles me procurou para comentar, apoiar ou criticar a iniciativa. Silêncio total. Em compensação, no dia seguinte ao da distribuição da carta, alunos do tal professor promoveram no pátio do colégio uma grande passeata de desagravo, com cartazes do tipo “Iomar é o Rei”.
Além disso, recebi de vários alunos mensagens iradas em defesa do professor. Impressionado com o grau de solidariedade demonstrado pelos alunos, não pude deixar de pensar na conhecidíssima Síndrome de Estocolmo.
Preservando a identidade dos remetentes, exibo, a seguir, algumas dessas mensagens, observando que todas, exceto a primeira, foram respondidas:
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Caro “amigo” desconhecido, eu como aluno e admirador da pessoa que o Prof. Iomar, não deixei de perceber que você é um “bitolado’’, desgraçado e covarde. Porque quando eu discordo em algum ponto com alguma pessoa, eu procuro essa mesma e comento com essa pessoa os pontos que eu discordo com ela, não escrevo uma carta falando mal dessa pessoa e distribuo-a com a finalidade de denegrir a imagem dessa pessoa!!! Você é um covarde miserável porque não deixou seu nome na carta. Daqui em diante, por favor, tome postura de gente, não saia falando mal de dois professores (Mariah e Iomar) que assumem muito bem seus papéis de profissionais e de pessoa.
Obs. Você e um filho da puta, covarde, viado, miserável, fuboca, filho de rapariga, boiola, cu d’agua, débil mental, ignorante e inconseqüente!!! Meu nome é (…), sou da oitava (…) (quando a pessoa não é covarde faz assim) e qualquer “probleminha” com a minha “carta”vem falar comigo, seu filho da puta!!!
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Sr. Nagib,
Eu, (…), da 8ª série (…), venho, por meio deste e-mail, perguntar não apenas com que propósito redigiu a “Carta ao Professor Iomar” repassada aos alunos do Sigma hoje, dia 18/09, mas também, o motivo da forma como o Sr. “entregou” a carta ao professor Iomar, afinal dessa forma, o Sr. demonstra covardia, ou então percebeu, que a “Carta” não possuía fundamento algum, tentando, desse modo, esconder-se por detrás dos alunos do Centro Educacional Sigma.
É valido ressaltar também, que por meio dessa “Carta” o senhor não apenas agride o professor Iomar, como também a professora Mariah, ambos, neutros quanto à suas opções político-partidárias em sala de aula.
O Sr. diz ”Venho acompanhado há algum tempo o seu incansável esforço para doutrinar ideológicamente as crianças do Sigma”, se sua/seu filha/filho se sente assim, direito dela, mas tenho certeza de que eu e muitos outros não se sentem assim, pois possúem opinião própria, e nada que não tenha fundamento não poderá mudá-las, à menos que sua própria opinião não tenha fundamento. Penso que a comparação que teria sido feita pelo professor Iomar, foi apenas uma má interpretação de sua/seu filha/filho.
Quanto a carta escrita pelo senhor demonstro apenasINDIGNAÇÃO, e estou certo de que não sou o único que pensa assim, muitos outros alunos da 8ª Série do Colégio Sigma pensam assim.
INDIGNADO,
(…)
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Você é ridículo, é um adulto infantil porque além deprejudicar um ótimo professor falou mal da escola (que é excelente ou então não colocaria sua filha lá) e da professora Mariah…se você fosse um adulto decente faria que nem os outros: marcaria uma reunião para conversar que não estava satisfeito e pronto, mas não… quis aparecer colocando essa CARTA RIDÍCULA em todos os sites de procura além de ficar na porta da escola mandando folhinhas aos pais dos alunos. Você tem religião? porque depois de ter escrito isso:”Che Guevara era tão parecido com Francisco de Assis quanto um discípulo de satanás se parece com um discípulo de nosso Senhor”, prova que no mínimo você é um ateu (um ateu que nem devia ter escrito isso porque não entende nada de igreja…afinal, quem é você para comparar os discípulos de Deus com os de satanás? por acaso você é um deles? se não for, devia ser!) Tenho pena de você… no mínimo você devia pedir perdão a Deus e depois para o professor Iomar…ah, só pra fechar: se você está insatisfeito com o Sigma (que é líder de aprovação no PAS) mude sua FILHINHA de escola…assim você faz um favor pra gente que estuda lá e pra você mesmo…ah, melhor, coloca ela em escola pública por que daí nenhum professor vai fazer a cabeça dela (por que aliás eles não vão fazer nada, a não ser greve!!!)
Obrigada,
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Sr. Nagib,
Sou estudante do 3º ano do colégio Sigma, o mesmo de suas filhas. Tive hoje o desprazer de ler uma carta do senhor a um professor do colégio, obviamente sem fundamentos. Fico imaginando o que leva uma pessoa claramente culta (pois apesar de ser contra certo regime, conhece muito a respeito) a criticar de forma tão covarde, sem dar direito a resposta, sem diálogo, uma pessoa que parece nem conhecer. O que leva um democrata cristão como o senhor a desprezar a diplomacia e fingir que não existem diálogos e negociações? Critico não sua opinião pois concordo em grande parte. Critico apenas a sua atitude pois nunca teve aula com o professor para saber quem falou o que e quando.
Tive aula com o Iomar e sei bem o seu estilo de aula. O Iomar costuma pedir que os alunos estudem tal capítulo, faz redações em sala acerca do tema lido e só depois dá sua aula. Se isso não é dar às pessoas a opção de concordar ou não com o que o livro diz, de estudar a parte antes da aula e de amadurecer um senso crítico, não sei o que é então. Poucos professores fazem como ele. Doutrinar é manipular informações e dominar a língua, como o senhor parece saber fazer.
Quanto à expor suas filhas, foi exatamente o que o senhor fez. Estudo em um prédio distante do delas e sei quem são. O que o senhor fez às suas filhas, que estão sendo mal vistas pelo colégio pois, infelizmente, as pessoas tem dificuldade de separar suas atitudes das delas, foi extremamente cruel. Se não adianta conversar no Sigma, o que elas ainda fazem lá? Seria mais fácil ter tirado elas do colégio e evitado essa situação constrangedora para ambas as partes. Imagine só que o (…), que deixou um comentário apoiando seu texto, é meu amigo, estuda no Makenzie e sabe. As pessoas que estão no 3º ano do Galois, fizeram 8ª série no Sigma e sabem o que está acontecendo. Amigos meus do Marista vieram me perguntar o que era isso. O senhor não expôs elas apenas no colégio o qual estudam mas nos outros também. Fofoca espalha fácil e foi justamente o que aconteceu. O Iomar conhece professores de outros colégio, que certamente terão um certo receio com as suas filhas.
Enfim, em minha casa as coisas funcionam da seguinte forma: eu tenho minhas posições e convicções que não são necessariamente as da minha mãe. Por que isso? Simples. Minha mãe me ensinou a criticar, com fundamentos, a estudar e formar minha opiniões. Senso crítico é algo que se ensina. Faz parte da personalidade de alguém. O senhor, aparentemente, tem medo pois não soube ensinar suas filhas a ter opinião, só a aceitar as suas ou de professores. Isso será extremamente maléfico no futuro pois não será assim que elas vão amadurecer. Digo mais, desejo cursar relações internacionais, tenho diplomatas, comunistas, democratas e católicos exarcerbados na minha família. Sofro pressão do meu pai por não ter opiniões exatamente iguais as dele mas deixo bem claro a ele que respeito sua religião e convicções e exijo respeito. Tudo é questão de referencial. Em parte, todos estão certos e todos estão errados. Respeito é extremamente importante e o que o senhor fez o faz perder a ra zão. Expôs a todos.
Paro por aqui pois o senhor deve me achar prepotente por estar lhe dando noções de educação. O mais vergonhoso é exatamente isso. Tenho apenas 17 anos e pareço ser mais sensata do que o senhor.
Obrigada,
(…)
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Em resposta a esta carta escrevi o seguinte:
Prezada …,
Sua mensagem veio confirmar algumas coisas que eu já sabia. A primeira é o sentimento de revolta que minha carta provocou em pessoas que, como você, foram vítimas do Professor Iomar. Sentimento, é claro, que o Professor Iomar e seus correligionários fazem questão de reforçar nos seus “cachorrinhos”, incitando-os a atacar e morder o desavisado que se atreva a ingressar nos seus domínios para questionar os seus objetivos político-pedagógicos (se você está no 3º ano do colégio, já deve ter lido “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell, e sabe bem o que eu estou querendo dizer com “cachorrinhos”). Um coleguinha seu da 8ª série me mandou um e-mail chamando-me de todos os nomes feios que ele sabia e mais alguns que ele não sabia. Tive pena desse garoto, porque ele estava literalmente cego de ódio; foi um desses zumbis teleguiados que há umas semanas fugiu de casa, no Rio, para se juntar às Farc na Amazônia (vc deve ter visto a notícia na TV). Doutrinação dá nisso.
As demonstrações de solidariedade ao professor promovidas pelos alunos me fizeram pensar na síndrome de Estocolmo. Você mesmo, (…), apesar de dizer que concorda em grande parte com o que eu disse, sai furiosa na defesa do “seqüestrador” e, em vez de me agradecer, me dirige acusações gravíssimas, como a de haver sido covarde, de não ter dado ao professor direito de resposta, de não haver pensado nas minhas filhas, etc.
Mas que espécie de “covarde” desafia sozinho um semi-deus adorado por uma horda de pequenos militantes, apoiado por dezenas de colegas-doutrinadores de profissão e acobertado pela direção do colégio? Que espécie de “covarde”, tendo um milhão de coisas mais interessantes e lucrativas a fazer na vida, entra sozinho uma briga que, a rigor, não seria só sua, escreve uma carta aberta e assinada a um manipulador de mentes infantis e vai distribuí-la pessoalmente na porta de um colégio?
De covardia deve ser acusado o Professor Iomar e seus colegas de militância, que há anos vêm se valendo da autoridade que lhes é conferida pela cátedra para inocular nas cabecinhas indefesas de crianças de 13, 14 anos, o veneno letal do marxismo, a pretexto de, como eu disse, contribuir para a “construção de uma sociedade mais justa”. De covardia podem ser acusados os donos de colégio que prosperaram no regime da livre iniciativa, mas não têm coragem de impedir que seus empregados demonizem esse regime e a riqueza que ele gera, transformando suas escolas em incubadoras de militantes e estatólatras. De covardia, enfim, podem ser acusados os quase trezentos pais de alunos que leram minha carta e, mesmo sabendo que tudo aquilo é a mais pura verdade, não se dignaram a manifestar o seu apoio à minha causa. Eles podem ser covardes, eu não.
E você ainda me censura por eu não haver procurado “resolver” o problema, dialogando e negociando, entre quatro paredes, com o Professor Iomar… Por que eu deveria ter feito isso? Para não arranhar a boa imagem do Professor perante a comunidade escolar? Pois eu lhe pergunto: quantas reputações de “direitistas malvados”, de “reacionários insensíveis”, de “pefelistas corruptos” o Professor Iomar já não destruiu em sala de aula, na frente de dezenas de milhares de alunos, ao longo de toda a sua bem sucedida carreira? Só ele pode falar às multidões?
Sinceramente, eu teria feito isso se não conhecesse tão bem a “tradição” à qual se filia o Professor Iomar. Esse tipo de gente acredita sinceramente no que faz. Os iomares, como os comunistas em geral, estão convencidos de que os fins justificam os meios, de maneira que, se para “construir uma sociedade mais justa” for necessário doutrinar crianças de 10 anos – ou eliminar fisicamente milhões de seres humanos, como fez Stalin na antiga União Soviética – não há problema. Eles dizem, de boa consciência, que não é possível fazer uma omelete sem quebrar ovos e estamos conversados.
Além disso, se eu procurasse o Professor Iomar para dizer que “Che” Guevara era um assassino comum e não poderia ser jamais comparado a um homem como S. Francisco de Assis, ele me desqualificaria sumariamente sob o rótulo de “direitista”, ou “conservador”, e talvez sequer me recebesse. Afinal, como eu disse, o mundo desses caras é assim: existem os “do bem” e os “do mal”; os “progressistas” são do bem e os “reacionários” – categoria na qual ele certamente me enquadra – são do mal.
E que “direito de resposta” você esperaria que eu desse ao Professor Iomar? Por acaso eu tenho um jornal ou uma emissora de rádio ou de televisão? Ele que respondesse às acusações, se tivesse algo a dizer. Ele não é um gênio? Pois que sentasse, escrevesse uma carta e a distribuísse na porta da escola, como eu fiz. Mas, evidentemente, ele não precisa se dar a esse tipo de trabalho: basta continuar manipulando os alunos em sala de aula, já que ninguém de fora vai mesmo incomodá-lo. Seja como for, eu é que estava exercendo o direito de resposta, ao defender a honra de São Francisco, que o Professor emporcalhou ao fazer a abjeta comparação.
Mas, como eu estava dizendo, essa reação dos alunos não me surpreendeu, afinal de contas quando se denuncia, como eu fiz, o delito de um doutrinador é preciso estar preparado para esse tipo de coisa.
O que você diz sobre a repercussão da carta também não é novidade para mim. Não é só nas escolas de Brasília que ela está sendo comentada: tenho recebido e-mails de vários Estados do Brasil, de pais e alunos, apoiando incondicionalmente a minha iniciativa e relatando casos de doutrinação ideológica tão graves quanto o que eu apontei (contaram-me, por exemplo, que numa encenação da Paixão de Cristo, ocorrida há três anos num colégio particular de Curitiba, a imagem de Nosso Senhor foi substituída por uma efígie de “Che” Guevara…). Você é muito nova e talvez ainda não saiba, mas existem milhares de iomares e mariahs espalhando o seu veneno pelo país e pelo continente. O Brasil está se transformando num imenso acampamento do MST, cujas escolas são adornadas com pôsteres de “Che” Guevara, Fidel Castro, Mao Tse Tung et caterva. Eu mesmo, quando tinha a sua idade, fui vítima de vários doutrinadores – que, aliás, eu achava o máximo – e levei anos para me livrar do feitiço. Vem daí, por certo, uma parte do desprezo que eu tenho por professores que dão o melhor de si mesmos para manipular a inteligência de pessoas absolutamente incapazes de oferecer a menor resistência, a pretexto de ensiná-las a votar nos candidatos “certos”. Você não acha isso um crime?
Por isso, pouco me importa que o Professor Iomar seja considerado, pelos alunos, um bom professor – aliás, disso eu também sabia. Se ele usa o talento que tem para doutrinar as crianças, quanto melhor ele fizer esse trabalho, pior. E a prova de que ele faz esse trabalho muito bem está no número de colegas seus que já votaram ou votarão, nas próximas eleições, nos candidatos do partido ou da linha ideológica do Professor Iomar.
Quanto às minhas filhas, quero dizer-lhe, antes de mais nada, que você e seus colegas que têm dificuldade para separar minhas atitudes das delas – e, depois, eu é que sou cruel… – provavelmente estão hostilizando a pessoa errada. É que uma delas está precisamente no 3º ano do colégio e não estuda num prédio distante do seu. Ou seja: se o que você diz é verdade, tem alguma garota sendo “mal vista” no lugar de uma delas. Em todo caso, posso lhe garantir que nenhuma das duas se importa em ser mal vista por pessoas que têm dificuldade para separar as minhas atitudes das delas.
É verdade que ninguém gosta muito de ser discriminado, principalmente na idade em que elas estão; e eu estaria mentindo se dissesse que elas não sofreram, nem estão sofrendo um certo constrangimento na escola. Mas elas preferem ficar constrangidas na frente de pessoas que têm dificuldades para separar minhas atitudes das delas, do que ficar constrangidas na frente de Deus. E é assim que elas se sentiriam se me pedissem para não denunciar a mentira do professor. Por essa razão, elas não só não pediram isso, como me encorajaram a fazer o que eu fiz.
Finalmente, você tem razão quando diz que eu não ensino minhas filhas a “criticar”. Eu as ensino – ou melhor, tento ensiná-las – a amar a Verdade; o resto é com elas.
Foi um prazer conversar com você.
Miguel
