Coordenador do ESP responde às críticas de um professor-candidato

O Professor — e candidato a deputado estadual pelo Partido Socialista Brasileiro – PSB — Morôni Azevedo de Vasconcelos, publicou em seu blog uma crítica ao trabalho desenvolvido pelo ESP. Reproduzimos, a seguir, o texto do professor e, mais abaixo, a resposta do coordenador do ESP, o advogado Miguel Nagib.

Escola sem partido? Isso vale para a doutrinação liberal?

Postado por Morôni Azevedo de Vasconcellos às 15:51 on quarta-feira, 7 de maio de 2014

 
Existe um site chamado “Escola sem partido”, que alega combater a doutrinação “marxista” nas escolas, supostamente lutando por uma escola imparcial…

http://www.escolasempartido.org/objetivos

Até aí estaria tudo bem, entretanto no FAQ já se nota que ele vê apenas uma doutrinação de esquerda nas escolas e subestima a existência de uma doutrinação de direita como algo isolado:

“Não existe doutrinação de direita?

Existem professores de direita que usam a sala de aula para fazer a cabeça dos alunos. Mas são franco-atiradores, trabalham por conta própria. No Brasil, quem promove a doutrinação político-ideológica em sala de aula, de forma sistemática e organizada, com apoio teórico (Gramsci, Althusser, Freire, Saviani, etc.), político (governos e partidos de esquerda, PT à frente), burocrático (MEC e secretarias de educação), editorial (indústria do livro didático) e sindical é a esquerda.”
http://www.escolasempartido.org/faq

No mesmo FAQ anteriormente citado, o site alega não ser de direita e nem ter vínculo nenhum com ela:

” O ESP é de direita?

O ESP não defende e não promove nenhum tópico da agenda liberal, conservadora ou tradicionalista. Logo, não é de direita.

Mas isso não impede que professores e estudantes de esquerda nos apliquem esse rótulo, com o objetivo de desqualificar o nosso trabalho. Fazem isso porque reconhecem que é a esquerda a única responsável pela instrumentalização do ensino para fins políticos e ideológicos; e, como nos opomos a essa prática, somos vistos como adversários ideológicos.”

Ou seja, nesse trecho eles já ignoram o que eles afirmaram anteriormente de existir (mesmo que pouca segundo eles) manipulação ideológica de direita nas escolas… Porém, basta vermos o site deles e logo veremos o líder maior dos neoconservadores: Olavo de Carvalho como um dos escritores do site:
http://www.escolasempartido.org/artigos/469-carta-de-um-aluno

Os textos do site apresentam fortes contradições e desconhecimento sobre o que é socialismo e misturam com o que é marxismo e o que foi o chamado socialismo real. Será que eles ignoram completamente as políticas socialistas de países ligados a socialdemocracia/socialismo democrático? Será que os países nórdicos são ditaduras?

http://www.escolasempartido.org/midia/474-socialismo-cor-de-rosa-no-colegio-militar-do-rj

Vejamos agora essa aula da Universidade Estácio de Sá e vejam se não há alguma doutrinação liberal:

 
http://professormoroni.blogspot.com.br/2014/05/escola-sem-partido-isso-vale-para.html
 
Antes que alguém tente dizer que ali está se falando uma realidade e não uma visão criada pela ideologia liberal, vale pensarmos nos professores altamente capacitados e mal remunerados enquanto outras profissões que pouco exigem qualificação acabam sendo melhor remuneradas…

Em suma, vemos que tanto a direita quanto a esquerda podem acabar manipulando informações na sala de aula e que é demasiado desonesto aplicar isso apenas a esquerda. É claro que qualquer corrente ciêntifica tem uma ideologia por trás (não necessariamente política, pode ser religiosa ou até mesmo a pureza científica pregada pelos positivistas), cabe ao professor (e quando possível ao aluno) saber perceber isso e deixar claro quando existem opiniões divergentes sobre um tema (até mesmo um militante tem que saber o que o outro pensa).

Apesar disto, a nossa direita adora se fingir de imparcial e ao mesmo tempo doutrinar as escolas (a mídia, …):

http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/os-problemas-obvios-de-alfabetizacao-de-uma-professora-de-geografia-da-usp/  (Atenção nesse texto por ser absurdo ao ponto de questionar a escrita da professora, que diga-se de passagem temos uma divergência em questões geográficas, sendo que isso é de total irrelevância para o conteúdo do texto e em especial por vezes ter alguma ligação com falta de tempo para revisar o texto).

http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=6287%3Aresenha140911&catid=43%3Aresenhas&Itemid=166

Pelo jeito a “Escola sem Partido” só vale para o partido dos outros…

 
RESPOSTA DO ESCOLA SEM PARTIDO 
 

Prezado Professor Morôni,

Sou o coordenador do site www.escolasempartido.org e gostaria de corrigir algumas impropriedades do seu texto. Espero que o Sr. publique minha resposta no seu blog, como estou fazendo com suas críticas no ESP.

Começo pelo final: não é verdade que a proposta de uma escola sem partido — defendida pelo nosso movimento — “só vale para o partido dos outros”.

Vale para TODOS os partidos.

Prova disso é a principal bandeira do ESP, que é a afixação em todas as salas de aula a partir do ensino médio e em todas as salas dos professores de um cartaz com os seguintes dizeres:

1. O professor não abusará da inexperiência, da falta de conhecimento ou da imaturidade dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente político-partidária, nem adotará livros didáticos que tenham esse objetivo. 

2. O professor não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, religiosas, ou da falta delas. 

3. O professor não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas. 

4. Ao tratar de questões políticas, sócio-culturais e econômicas, o professor apresentará aos alunos, de forma justa – isto é, com a mesma profundidade e seriedade –, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito. 

5. O professor deverá abster-se de introduzir, em disciplina obrigatória, conteúdos que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos estudantes ou de seus pais.

Como o Sr. vê, o que nós defendemos é uma escola realmente livre — ou, pelo menos, o mais livre possível — da influência da política e da ideologia.

Nossa proposta se baseia (A) no princípio constitucional da neutralidade política e ideológica do Estado — que impede que a máquina do Estado seja colocada a serviço desse ou daquele partido, dessa ou daquela corrente política e ideológica; e (B) na liberdade de consciência dos estudantes (obviamente, se os alunos são OBRIGADOS a assistir às aulas de um professor, esse professor não pode se aproveitar dessa circunstância para tentar fazer a cabeça dos alunos, para tentar transformá-los em réplicas ideológicas de si mesmo; se fizer isso estará violentando a liberdade de consciência dos alunos).

Não fazemos acepção de partido ou de ideologia.

De todo modo, se fosse o caso, o Escola sem Partido teria todo o direito de ser ideológico, já que não fazemos parte da máquina do Estado e ninguém é OBRIGADO a ler os textos que publicamos. Quem não tem esse direito é o professor em sala de aula.

Quanto à realidade existente hoje no sistema de ensino, desonesto é negar o viés esquerdista da esmagadora maioria dos professores. Desonesto é negar que a maior parte desses professores usa a sala de aula para promover suas próprias concepções e preferências políticas e ideológicas.

Não sou eu que estou dizendo isso. O Instituto Sensus apurou essa realidade em 2008, na única pesquisa no gênero já realizada no Brasil. Veja aqui:

http://escolasempartido.org/images/quadroveja.jpg

Essa pesquisa apenas traduziu, em números, uma realidade conhecida, por experiência direta, pessoal, de todas as pessoas que passaram pelo sistema de ensino nos últimos 30 anos.

Ou seja, o viés esquerdista da doutrinação política e ideológica no sistema de ensino brasileiro é apenas um fato.

Nesse quadro de quase monopólio esquerdista na educação, a existência de uma pequena minoria de professores de direita (liberais ou conservadores) que usa suas aulas para promover suas próprias convicções políticas e ideológicas é até um bem para os alunos, porque os ajuda a enxergar a realidade sob uma perspectiva cujo acesso lhes é negado sistematicamente.

Professor, toda ideologia — seja de direita, de esquerda ou de outro gênero — atrapalha o conhecimento da realidade. Mas nada atrapalha mais esse conhecimento do que ver o mundo sob o prisma de uma única ideologia.

Não precisa responder para mim; responda para si mesmo: o Sr., como professor — e candidato por um partido… de esquerda (que coincidência, né?) –, não usa suas aulas para fazer a cabeça dos alunos? Se não usa, parabéns! Do contrário, deveria se envergonhar disso.

Afinal, a doutrinação política ideológica em sala de aula não é apenas uma prática ilícita; é uma prática covarde e imoral. O professor abusar da autoridade que lhe é conferida pela cátedra; do poder de fato e de direito que exerce sobre os alunos; da circunstância de os alunos serem obrigados a assistir às suas aulas; do temor, da insegurança, da imaturidade, da falta de conhecimento e da inexperiência dos alunos para manipulá-los, para tentar cooptá-los, para tentar transformá-los, como eu disse, em réplicas ideológicas de si mesmo, é um ato de suma covardia.

Atenciosamente,

Miguel Nagib

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