Legitimação do vandalismo nas universidades

Por Luiz Lopes Diniz Filho

No post anterior, comentei que o esquerdismo da escola brasileira pode ser um dos fatores responsáveis pelo vandalismo a que estamos assistindo – na verdade, trata-se de terrorismo mesmo, ainda que, até o momento, sem mortes, como notou Flávio Morgenstern. Mas não é apenas no ensino médio que os alunos aprendem que a luta insurrecional e as barbaridades cometidas por “movimentos sociais” como o MST são justificáveis, pois o mesmo se dá nas nossas universidades!

A primeira fonte de legitimação ideológica da violência nas universidades é a doutrinação teórica de esquerda que acontece nas salas de aula, especialmente nos cursos de ciências humanas. A influência da teoria social crítica (que reúne o marxismo e certo anticapitalismo pós-modernista) responde pela justificação moral de revoluções, insurreições, do crime comum e até do mau comportamento de estudantes.

Não que isso permita fazer generalizações absolutas, é claro. Falando da geografia, meio que eu conheço melhor, posso citar dois exemplos: Antonio Carlos Robert de Moraes é um marxista que optou pela social-democracia, razão pela qual sempre repudiou firmemente as ditaduras comunistas, a luta armada, o terrorismo e qualquer tipo de ação truculenta motivada politicamente; de outro lado, Milton Santos sempre foi um apoiador do socialismo real e, durante uma aula a que eu assisti na graduação, defendeu a prática de fuzilamentos com um alegre sorriso no rosto (ver abaixo). Todavia, basta ler o que nossos professores doutores publicam e o que dizem nos eventos científicos para perceber que, infelizmente, Moraes é a exceção, enquanto Milton Santos é a regra. Daí não ser nada surpreendente vermos um geógrafo como Armen Mamigonian saudar os atentados de 11 de setembro durante uma palestra. Ou, numa manifestação muito mais branda de pensamento revolucionário, vermos que Ana Fani Alessandri Carlos, ao invés de repudiar energicamente uma invasão do prédio da diretoria da FFLCH-USP ocorrida em 2011, preferiu escrever um “manifesto” no qual se limitava a criticar os supostos abusos e violência da polícia que, segundo os próprios invasores, teriam motivado a invasão. Ou seja, não deu apoio à ilegalidade, mas também não a condenou, e ainda reproduziu as críticas dos invasores à polícia paulista.

“A verdade da teoria é a prática”

Mas existe uma segunda fonte de justificação da violência nas universidades, que é a política estudantil e sua prática contumaz de invadir reitorias e refeitórios. Quando estive na graduação, já lá se vão mais de duas décadas, participei durante um ano do Centro Acadêmico de Geografia. Eu defendia a via do socialismo democrático, de tal modo que, embora fosse de esquerda, acabei batendo boca diversas vezes com ativistas universitários – inclusive alguns amigos meus – que apoiavam abertamente invasões e violências.

Certa feita, os pelegos da CUT – que então jogavam lenha na fogueira para ajudar o PT, já que este era oposição – convocaram uma greve geral. E lá foram alguns estudantes fazer piquete na porta do campus da USP para “dar força ao movimento”, o qual fracassou. Eu não fui, mas conversei com meus amigos sobre o que rolou. Dois deles contaram que foram parar na delegacia porque estavam tentando impedir as pessoas de entrar no campus, ao que eu comentei: “não tenho nada contra que se tente convencer as pessoas a fazer greve, mas, se vocês foram presos porque estavam tentando impedir a entrada, me desculpem dizer, mas foi merecido”. Um deles virou as costas e foi-se embora no mesmo instante, pois deduziu logo que íamos brigar, como tantas outras vezes já tinha acontecido. O outro ficou e nós começamos uma daquelas intermináveis discussões políticas que tínhamos na época.

E não se pense que visões como essas eram coisa de uma meia dúzia de “radicais” da política estudantil, não. Seja em conversas informais, em discursos feitos nas assembleias ou nos textos divulgados pelos militantes, o que mais se via eram palavras de ordem contra a “imprensa burguesa”, o “Estado burguês”, e tantas outras expressões que denotam o repúdio às instituições e à democracia. A grande maioria dos militantes, de todos os partidos e tendências, justificavam ideológica e moralmente a violência, a censura e as ditaduras de esquerda! Assim como Moraes era uma exceção entre os professores, eu era uma exceção entre os alunos que participavam da política estudantil, razão pela qual pulei fora daquele meio rapidinho.

De lá para cá, ficou pior!

Vou citar um último exemplo, bem pertinente ao terrorismo dos protestos do Movimento Passe Livre. Numa das discussões sobre a legitimidade do uso da violência que eu tive com um militante amigo meu – já falecido há vários anos – acabamos por comentar algumas depredações de ônibus que haviam sido perpetradas na época por sindicalistas durante uma greve. Num dado momento, ele me disse, na maior calma: “jogar pedra num ônibus com gente dentro, eu sou contra, pois aí pode machucar alguém; mas destruir um ônibus parado eu sou a favor, já que isso é propriedade privada e nós somos contra”!

Entretanto, como informa Flávio Morgenstern, num artigo imperdível, certas discussões no Facebook mostram que a situação está piorando, pois tem gente que participou da marcha convocada pelo Passe Livre dizendo abertamente que não vê grande problema em atear fogo a um ônibus antes das pessoas saírem!

E eu cheguei a pensar que, com a queda do Muro de Berlim, nossa esquerda iria se civilizar um pouco. Deu o contrário!

 

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