Por uma educação liberal

Por J. O. de Meira Penna

Meu antigo colega da Universidade de Brasília e dileto amigo, o professor Nelson Lehmann da Silva, preocupado como eu e como todos os brasileiros de bom-senso (que são poucos…) pelos rumos da educação brasileira – chamou-me a atenção para o fato de que a educação de segundo grau em nosso país, além de outros defeitos que registra, está profundamente contaminada de idéias autoritárias, anti-liberais, quando não francamente marxistas. Se examinarmos, de fato, uma quantidade de publicações que são distribuídas aos jovens estudantes o que se descobre, efetivamente, não é a informação correta e imparcial, mas o condicionamento ideológico pela propaganda. A leitura desse verdadeiro lixo me faria arrepiar os cabelos… se ainda os tivesse em quantidade suficiente.

O que é paradoxal na circunstância é que o ensino secundário é em grande parte privado, ao contrário do que ocorre no primário e no universitário. Muitos especialistas já denunciaram o gargalo profundamente anti-social, eis que seleciona privilegiadamente as crianças de famílias de classe média as quais terão, mais tarde, a oportunidade de ingressar em universidades públicas gratuitas – para júbilo da Nomenklatura. O controle estatal da educação proporciona a uma classe extremamente vulnerável de intelectuários complexados e ressentidos as condições para que se deixem seduzir pelo canto de sereia das ideologias. É natural, então, que se descubram em si próprios a alta e santa missão de educar a juventude nos padrões redentores de seu próprio bestialógico.

Verifiquei, por exemplo, que 90% dos livros de autores marxistas (Ianni, Caio Prado, Furtado, Konder, etc.) foram publicados ao tempo em que, supostamente, dominava a “linha dura” militar (1968/80) que impusera a censura do pensamento. Acontece que os militares, não muito sutis, como é notório, acreditavam ser necessário censurar os jornais. Mas como não costumavam ler livro algum, deixavam aos editores a liberdade de publicar o que bem entendessem e, desse modo, foi a “Ideologia Brasileira” toda ela gramscianamente edificada, a partir dos próprios bancos escolares, sobre o mais primário bestialógico.

A escola privada do segundo grau não faz exceção à regra. Como nota o professor Nelson Lehmann, os proprietários das grandes redes de ensino, médio e superior, sem contar os de orientação religiosa ou sobretudo estes, aparentemente pouco se dão conta de que o que se ensina nas salas de aula lhes é diametralmente avesso aos interesses como empresários. Outrora sarcasticamente observava Lênine que o burguês sempre estará pronto a vender até mesmo a corda com que será enforcado… Sendo o dono de escola padre, presumivelmente venderá a corda com mais entusiasmo de maneira a rapidamente entrar no reino dos céus, em recompensa por haver feito a sua opção preferencial pelos pobres (diabos).

O resultado de tudo isso é que o vocabulário e o modelo marxistas de interpretação dos fatos não só enchem os livros didáticos destinados aos diabinhos e diabinhas inocentes, mas os que são destinados aos seus “mestres”. Em dúzias de tais publicações, cada uma mais medíocre do que a outra, ofereço como único exemplo supino a “Nova História Crítica, Moderna e Contemporânea”, de Mário Schmidt, publicada pela Editora Nova Geração, São Paulo. Para começar, a capa: uma ampulheta repleta de dólares e uma coroa; e, no vaso de baixo, sange que se derrama pelo chão. Suponho que o edificante ícone ilustra o reinado do capitalismo que termina em sangue. Mas, havendo dúvida, leiam o primeiro parágrafo da obra-prima: “Não é verdadeiro esse papo de que os homens e as mulheres sempre foram doidos pra (sic) lucrar e enriquecer. Foi a sociedade capitalista que criou esse bando de gente que só pensa em grana e não hesita em massacrar os outros por causa do dinheiro”. Se os pais não compreendem porque seus filhos falam um português tão miserável, que irá, alguns anos mais tarde, transparecer no massacre de nossa língua, este sim muito real, a que diariamente assistimos pela leitura dos jornais,o vocabulário da TV e o noticiário sobre os discursos de políticos em campanha eleitoral – eis a explicação!

Em todos os livros de história, geografia, sociologia e mesmo literatura e religião, é a mesma indigesta verborragia marxista que nos enausea, com a repetição dos mesmos conceitos: “luta de classes”, “exploração capitalista”, “imperialismo americano”, “burguesia exploradora” e outras no gênero. A burrice e a mentira são marteladas com a repetição obsessiva, a mesma repetição que vamos encontrar no Mein Kampf quando Hitler faz a exposição do sistema que irá servir às técnicas sofisticadas do Dr. Goebbels.

Mais grave é a desinformação camuflada qe se descobre, por exemplo, na obra “Estudando as Paisagens”, publicada pelo Instituto Brasileiro de Edições Pedagógicas, onde a pedagogia consiste em reservar meia página para os diversos países da América, enquanto Cuba faz jus a quatro páginas de glorificação destinadas a provar que todos os desastres sofridos pelo malfadado latifúndio d’El Comandante Supremo resultam do pseudo-“bloqueio” americano. Um outro exemplo é o da distorção da própria história do Brasil. Em alguns casos a Guerra do Paraguai é descrita como um empreendimento do imperialismo britânico ao qual o Brasil serviu, sem o saber, como sub-imperialismo, sacrificando o glorioso povo guarani no altar do capitalismo internacional. Outro exemplo é o livro que dedica duas páginas inteiras à descrição da “revolta da chibata” num encouraçado, a princípios do século, enquanto a chamada “intentona” comunista de 24/27 de novembro de 1935 merece apenas três linhas e estas mesmas apenas para informar que os responsáveis foram “torturados pela polícia da ditadura”.

Não cansarei o leitor com outros exemplos.Cabe-me apenas salientar que métodos selvagens de doutrinação como estes foram utilizados na Rússia durante 70 anos, o que não impediu o Império soviético de ruir como um castelo de cartas. O grave é o esforço tenaz para transformar a mente da juventude do secundário em titica, enquanto seus pedagogos se mantêm ao nível do analfabetismo do primário.

 

Brasília, julho de 1998.

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