Visões distorcidas dos livros didáticos sobre agricultura e êxodo rural

Luis Lopes Diniz Filho, professor do Departamento de Geografia da UFPR, comenta mensagem enviada ao ESP por mãe de estudante sobre livro de geografia adotado pela escola de seu filho (11.05.2009).

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As passagens citadas do livro mostram que ele reproduz com fidelidade as idéias da geografia crítica, que é dominante no ensino de geografia. Um exemplo de trabalho que apresenta exatamente essa mesma visão das relações da agricultura pode ser encontrado aqui. Mais uma comprovação de que os conteúdos escolares estão sendo definidos segundo uma visão unilateral da realidade, ao invés de trabalharem visões alternativas para estimularem o aluno a pensar com a própria cabeça. Isso contraria frontalmente aquilo que os professores e autores de livros didáticos (como Vesentini) dizem que fazem, isto é, “estimular o pensamento crítico do aluno”.

Não sei quais dados estatísticos os autores utilizaram para tentar provar o que está dito acima, mas há inúmeros dados e resultados de pesquisas que confrontam suas afirmações. Vejamos:

1. O texto sugere que as más condições de trabalho e a dificuldade de acesso a uma renda digna seriam males próprios da concentração fundiária. Todavia, segundo alguns estudos sobre a agricultura no Sul do Brasil: “As piores condições de trabalho nas quais os boias-frias estão submetidos foram encontradas nas pequenas propriedades, sobretudo os boias-frias do café no norte do Paraná. […] O pequeno proprietário, que não se utiliza do intermediário e mantêm uma relação direta com o boias-frias, na grande maioria dos casos, não registra o trabalhador em CTPS [Carteira de Trabalho e Previdência Social], não fornece os equipamentos de segurança e realiza o transporte em veículos inadequados como ‘caminhonetes’ e carrocerias tracionadas por tratores. Além disso, quando não consegue vender a safra por um preço que lhe permita pagar o financiamento ou outras contas, além da compra da mão-de-obra, não salda suas dívidas com os boias-frias” (Broietti; Medeiros; Sampaio, 2005, p. 69).

2. A afirmação de que o capitalismo brasileiro deixou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres é completamente falsa. Os indicadores de rendimento mostram que, no Brasil, o número de pobres vem caindo desde o Plano Real, no mínimo, sendo que essa redução foi mais rápida nos anos de crescimento econômico mais intenso, isto é, nos biênios 1994-1995 e 2004-2005 (Salm, 2006). É nos períodos de crescimento econômico fraco, como em 2003 e nos últimos meses de 2008, que o número de pobres aumenta. Mas esses aumentos não conseguem reverter a diminuição que ocorre nos anos de bom crescimento econômico, de modo que o saldo é claramente favorável: milhões de pessoas superaram a linha de pobreza nos últimos anos!

3. Talvez os autores do livro objetassem que, quando falam que os pobres ficaram mais pobres, não estão se referindo à pobreza absoluta e sim à pobreza relativa. Bem, se não tiverem explicado a diferença entre privação de bens essenciais e desigualdade de renda, não deram aos alunos conhecimentos para interpretarem adequadamente as estatísticas de rendimentos, o que depõe contra a qualidade do livro didático que escreveram. Mas o pior é que, ainda que estivessem falando apenas sobre pobreza relativa, a afirmação contida no livro continuaria falsa. A série histórica da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD aponta que, no Brasil, a concentração de renda está diminuindo desde 1995 e, de forma mais intensa e abrangente, a partir de 2001 (Hoffman, 2006).

4. Quando o livro diz que o êxodo rural engendrado pelo capitalismo amontoa os migrantes em “grandes cidades carentes de infra-estrutura, de habitações, de empregos, de qualquer assistência médica e social”, esquece o fato elementar de que é muito mais barato estender as redes de água, luz e esgoto a todos os domicílios se as pessoas residirem próximas umas das outras, o que só pode acontecer na cidade, não no espaço rural, onde a densidade demográfica é baixa. É por isso que, segundo o IBGE, em 1999, cerca de 95% dos domicílios já tinha luz elétrica, quase 80% possuía lixo coletado e pouco mais de três quartos contava com água encanada e acesso à rede de distribuição. No que diz respeito a esgoto e fossa séptica, o percentual ainda estava pouco acima da metade (52,8% dos domicílios). Mas quanto tempo teria demorado para levar essas redes de serviços a uma população em crescimento se esta permanecesse dispersa no espaço rural, ainda mais considerando o tamanho do Brasil?

5. O mesmo vale para a saúde e a educação, pois fica muito mais barato levar esses serviços até as pessoas instalando hospitais e escolas nos espaços urbanos do que espalhar unidades de menor porte pelo espaço rural. Segundo o IBGE, “entre os Censos de 1940 e 2000, a população brasileira cresceu quatro vezes. O Brasil rural tornou-se urbano (31,3% para 81,2% de taxa de urbanização). Nesse período, houve o envelhecimento da população brasileira, que na faixa de 15 a 59 anos, aumentou de 53% para 61,8%.[…] O país conseguiu reduzir em cinco vezes a taxa de analfabetismo, que caiu de 56,8% para 12,1%. A taxa de escolarização, entre crianças de 7 a 14 anos, aumentou de 30,6% para 94,5%. […] No período em foco, agricultura, pecuária e silvicultura, que em 1940  representava 32,6% da população ocupada, declinou para 17,9%, em 2000” (IBGE, 2009).

6. Até mesmo a desnutrição foi virtualmente eliminada à medida que a população deixava o campo. Em 1974-1975, a população masculina contava com 7,2% de indivíduos com déficit de peso, enquanto a população feminina na mesma situação era de 10,2%. Já em 2002-2003 (antes do Fome Zero, portanto), esses percentuais haviam caído para 2,8% e 5,4%, respectivamente (IBGE, 2004). Como é normal que até 5% das pessoas em qualquer grupo populacional tenham déficit de peso, por razões de ordem genética, isso significa que deixou de haver exposição relevante da população brasileira à desnutrição justamente na medida em que a população rural ia sendo “expulsa” para as cidades! Nada mais lógico que seja assim, já que a modernização visa aumentar a produtividade da terra e do trabalho na agricultura, isto é, produzir mais alimentos por unidade de área e com menos mão-de-obra.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A passagem do livro que diz “o que predomina de forma absoluta no país são os interesses empresariais e da elite” não passa de um pressuposto ideológico, não havendo indicadores estatísticos que possam confirmá-la ou contradizê-la diretamente. Mas, considerando a grande melhora ocorrida nas condições de vida nas últimas décadas, como mostram os indicadores citados acima, é legítimo dizer que, mesmo se for verdade que os interesses da “elite” prevalecem, é óbvio que tais interesses são compatíveis com a melhora das situações de renda, nutrição, saúde e educação do conjunto da sociedade.

De outro lado, se os autores quisessem mesmo ser fiéis à déia de que a educação deve mostrar várias visões da realidade, deveriam contrapor dados como esses citados com os discursos de organizações como MST e CPT acerca dos efeitos econômicos e sociais da modernização agrícola. O problema é que, se fizessem isso, mostrariam indubitavelmente que os discursos dessas organizações distorcem a realidade no intuito de fazer valer suas visões de mundo e/ou interesses econômicos. Por não fazer o confronto dos discursos dessas organizações com os fatos mostrados pelas estatísticas oficiais, o livro Êxodo rural e urbanização, de Fernando Portela e José William Vesentini, nada mais faz do que legitimar aprioristicamente tais discursos e os interesses que eles veiculam. Tudo o que um livro didático ou paradidático não deve fazer!

Luis Lopes Diniz Filho é professor do Departamento de Geografia da Universidade Federal do Paraná


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