Ainda o molestamento ideológico nas escolas

Por Reinaldo Azevedo

O que se vê acima são quadrinhos da tal apostila de geografia do Colégio São Bento, no Rio, que gerou protestos de pais, ex-alunos e amigos da escola. Leitores dizem que pertencem ao livro Capitalismo para Principiantes, de Carlos Eduardo Novaes e Vilmar Silva Rodrigues, da Editora Ática. Deve ser. Vi o livro na Internet. O mesmo desenho está na capa.

É marxismo pedestre, da pior espécie — sempre observando que pode haver uma escala da ruindade. Já basta o que a universidade brasileira faz com os nossos jovens. Que se observe: o que o livro ensina não é muito diferente do que afirmam Marilena Chaui, Emir Sader e assemelhados. Ocorre que, num curso superior, em tese ao menos, os estudantes já podem se defender. Mas o que dizer de uma criança de 12 ou 13 anos que está na sétima série? O professor, como é justo e desejável, é uma autoridade. Se ele está fornecendo aquele material para o estudo e a reflexão, então é porque deve ser aquilo mesmo.

Imaginem só: pais de alunos podem ser empresários, não? Segundo o livro, são verdadeiros assaltantes. Donos de empresa, que se saiba, trabalham, certo? Não segundo as ilustrações: apenas fumam charuto, desfilam de casaca e tramam contra a classe operária. O livro é acintoso na sua estupidez; estúpido no seu reducionismo; reducionista na sua tentativa de explicar a estudantes, de forma simples, o que nem mesmo os autores entenderam.

Conheço toda a ladainha de justificativas. “Ah, o professor só forneceu aquele material para estimular o debate; tudo depende de como se trabalha com ele em sala de aula”. Mentira! Publiquei ontem o link da apostila. Quando o mestre decide explicar em linguagem verbal e referencial as situações dos quadrinhos, ele não faz por menos: endossa a visão do “gibi”. Isso não é educação, mas lavagem cerebral. E, desta feita, ninguém vai cobrar o “outro lado” — porque não há outro lado para essa perversidade chamada “capitalismo”. Trata-se mesmo de um sistema de homens maus, que existe para gerar o mal-estar dos indivíduos e dos povos — menos, é certo, da burguesia exploradora.

Sim, sei bem: uma fatia dos estudantes vai ignorar solenemente essa porcariada porque ignoraria mesmo, de natural, qualquer conteúdo. No outro extremo, uma parcela já deu largada, como direi?, às sinapses da rebeldia e deve desprezar aquele pobre tolo que fica lá na frente com suas noções boçais de justiça social. Ocorre que é a média que faz um país mais educado ou menos. São aqueles alunos que não se fazem notar nem pela rebeldia negativa — não querem nada — nem pela positiva: os temperamentos naturalmente inquiridores, desafiadores.

O que, afinal de contas, se está ensinando a eles? Aqueles do grupo que tenham inclinações empreendedoras, por exemplo, devem começar a considerar que a propriedade é um mal, um roubo, a origem do sofrimento humano? Serão estimulados a ver a história através das lentes do desastre, não do progresso? O capitalismo não nos trouxe nada de útil — nem mesmo, sei lá eu, as vacinas, os antibióticos, o Chicabom?

É evidente — e não me suponham apocalíptico; apenas pessimista — que sei bem que não sairá da escola uma maioria de militantes socialistas, dispostos a fazer a revolução. Mas não se duvide de que se está amansando a mão-de-obra ideológico-intelectual das esquerdas — e, como o PT é o maior partido com esse perfil, trata-se de cevar, já no berço escolar, o futuro eleitorado. Há um centro de conspiração onde isso é tramado? Não. A coisa é até pior: há uma espécie doença do espírito solta no ar. O trabalho é feito por agentes secretos até para si mesmos. Muitos nem sabem que estão servindo à causa.

Gostei da carta de protesto enviada ao reitor do São Bento. Essa gente já foi longe demais. Aquele troço na sétima série? Não é possível. Você tem o dever de proteger seu filho do molestamento ideológico.

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