Leitura tendenciosa e inadequada

 

Mãe de estudantes expressa indignação com livros didáticos adotados pela escola de seus filhos (11.05.2009). Leia também os comentários do ESP, escritos por Luis Diniz Filho e Luciano Garrido.

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Sou mãe de 4 filhos do Ensino Fundamental que estudam no Colégio Nossa Senhora das Dores (escola católica da Zona Norte de São Paulo). De maneira geral, estou contente com a escola, e acompanho diariamente as tarefas de casa das crianças, pois é minha obrigação de mãe e uma ótima oportunidade para educar e esclarecer aquelas aulas de Geografia e História (principalmente), cheias de informações distorcidas, que, sem a devida explicação, são absorvidas totalmente pelos alunos, que não têm condições de se proteger ainda.

Gostaria de comentar aqui duas situações recentes: uma leitura extra-classe de Geografia do 7º ano e um texto do livro de Português do 4º ano, que me deixaram indignada, e não posso deixar passar em branco.

A primeira se refere ao livro “Êxodo Rural e Urbanização”, de Fernando Portela e José William Vesentini (professor do depto. De Geografia da USP!), adotado como leitura extra-classe pelo colégio da minha filha do 7º ano do Ensino Fundamental. Trata-se de um livro de ficção que pretende ser uma “viagem pela Geografia”; ele conta a saga de uma família expulsa de suas terras na maior metrópole do Brasil, enquanto traz como síntese geográfica o intenso deslocamento populacional que transformou o Brasil em país urbano, o cinema e a cidade e o êxodo rural e a urbanização em números e mapas.

Embasada na linguagem científica e em dados estatísticos, a narrativa do pequeno agricultor que foi forçado por um latifundiário do mal a vender seu sítio e ir para São Paulo, onde veio a ser segurança de uma empresa que tinha terras urbanas ociosas e as devia defender dos sem-teto, tem final feliz. O protagonista, Tonho Leitão, acaba decidindo ficar ao lado dos sem-teto, sendo aclamado como herói pela mídia e recebendo a promessa de um emprego digno (sabe-se lá do que), oferecido anonimamente por meio da imprensa.

O livro explica que “no Brasil, o capitalismo concentrou renda e terra, tornou os ricos mais ricos e os pobres mais pobres, não possibilitou um significativo avanço dos direitos sociais, em especial dos trabalhadores rurais, como o direito a um emprego decente, a uma justiça eficaz e generalizada, a uma renda mínima que permita o sustento da família, inclusive com os indispensáveis gastos em educação e saúde.” Também diz que “o que predomina de forma absoluta no país são os interesses empresariais e da elite, além de um crescimento econômico obtido à custa da superexploração dos trabalhadores. Trata-se de um capitalismo dependente, que produz uma urbanização problemática, com o amontoamento de grupos de migrantes em grandes cidades carentes de infra-estrutura, de habitações, de empregos, de qualquer assistência médica e social.”

O livro, sem nunca mencionar o socialismo, o PT, ou o comunismo, encoraja os alunos a buscarem alternativas para corrigir o problema da desigualdade social originado, segundo eles, pelo capitalismo, em busca de um mundo melhor; mostra o MST e outros movimentos populacionais como organizações legítimas do povo para pressionar o governo omisso a garantir os direitos de cada cidadão, e finaliza assim: “A ação de setores da Igreja e de alguns poucos grupos e partidos políticos, que se colocam a favor dos grupos populares, também tem contribuído nesse processo de organização, de tomada de consciência e de luta por um mundo melhor. Oxalá, o futuro de nossas cidades e de nossa população seja bem melhor!”

Comentário do ESP, por Luis Lopes Diniz Filho

A segunda situação foi a propósito do conto “A farsa e os farsantes”, retirado do livro “Quinze anos”, de Carlos Heitor Cony, texto constante do livro didático de Língua Portuguesa “Construindo a escrita” do 4º ano, elaborado por Carmen Silvia Carvalho, Déborah Panachão, Sarina Kutnikas e Silvia Salmaso, da Editora Ática. Escrito sem introdução e com vocabulário difícil para crianças de 8 anos interpretarem (do 4º ano, antiga 3ª série do Fundamental), o texto deixou meu filho incomodado, sem conseguir explicar o motivo.

Trata-se da história de um pai e suas duas filhas, na qual a mais velha finge estar doente para faltar à escola, e a mais nova percebe, conta ao pai, que não acredita nela. Então, a mais nova vai para a escola e quando a mais velha é obrigada a confessar ao pai a mentira de que não estava preparada para uma prova, ao invés de ficar bravo, este apenas fica aliviado por ela estar bem e ficam os dois brincando juntos a tarde inteira. Para completar, quando a tarde acaba e a filha mais nova chega em casa, eles escondem o ocorrido, e mantêm a encenação de que a mais velha estava doente.

Ao ler o texto, entendi que o incômodo do meu filho se devia ao fato de ele ter achado “legal” a garota ter passado uma tarde gostosa com o pai, mas alguma coisa que ele não conseguia identificar estava soando mal. Expliquei-lhe, então, que, o problema não estava no pai brincar com a filha, mas nele ter perdido a oportunidade de educá-la, forçando-a a assumir suas obrigações sem fugir, ajudando-lhe a estudar para a tal prova, para então perdoá-la, e brincar o restante do tempo, o que equilibraria as coisas.

Depois da minha explicação, meu filho conseguiu se livrar do incômodo, ajudei-o com a tarefa e pedi-lhe para ficar atento à aula e vir me contar como a professora de classe lidou com a correção da lição de casa, principalmente das seguintes perguntas: “Preste atenção na reação do pai. A) Como ele reagiu quando a filha mais velha contou que a dor era de mentira? B) Você esperava essa reação? Como você imaginou que ele fosse reagir? C) Que sentimento essa reação do pai despertou em você, como leitor?”

No dia seguinte, meu filho me contou que alguns alunos foram escolhidos para ler o que escreveram. Invariavelmente, para a resposta C, os alunos acharam que o pai foi muito legal na sua atitude, e a professora considerou todas as respostas corretas, pois tratava-se de opiniões pessoais. Ou seja, os alunos absorveram bem a lição de que o bom pai é aquele que não briga quando o filho descumpre suas obrigações, mas apenas brinca com o filho.

Vejam no texto o momento em que o pai descobre a mentira:

“(…) a certeza de que a filha não tivera nada lhe dá súbita e incontrolada ternura. Beija-a avidamente, reencontrado em sua rotina e sossego.

– E agora?

Agora, é tratar de passar a tarde juntos, como há muito tempo não passavam. (…)”

Comentário do ESP, por Luciano Garrido


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