Lição nº 1: ética não se confunde com opinião

O psicólogo Luciano Garrido comenta mensagem enviada ao ESP por mãe de estudante sobre livro de Português adotado pela escola de seu filho (11.05.2009).

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Não restam dúvidas de que o texto é inapropriado para crianças. Não só pelo vocabulário mais ou menos rebuscado, é claro. Pode-se dizer que a relação pai-filha trazida no texto jamais seria considerada um exemplo moralmente edificante para essa faixa etária. Por uma simples razão: crianças devem ser instruídas por meio de mensagens com conteúdo moral auto-evidente e de fácil assimilação, evitando-se, sempre que possível, controvérsias, sutilezas ou relativismos. Não é por outro motivo que as fábulas são um excelente instrumento de educação.

Há no enredo desta história sutilezas psicológicas que, à primeira vista, até alguns adultos seriam incapazes de compreender. O autor, por exemplo, dá margem a que se interprete a reação paterna de condescendência como subproduto de um sentimento de culpa talvez inconsciente, uma vez que foi sugerido na estória que o pai não tem tido tempo suficiente para fazer companhia à filha. Assim sendo, o pai teria acolhido as atitudes da garotinha como uma boa chance de tentar redimir suas ausências, ao “passar a tarde juntos, como há muito tempo não passavam” (esse trecho é bem revelador).

A intenção da filha poderia ser tomada apenas como uma tentativa infantil e desastrada de tentar evitar “mal maior”, caso tivesse que realizar uma prova para a qual não estudou (quando seu dever, aliás, era ter estudado). Mas a farsa e a mentira nunca foram o meio apropriado de se conseguir alguma coisa. Os fins, obviamente, não justificam os meios. O pai não só perdeu a oportunidade de educar sua filha, orientando-lhe a respeito dessas razões, como deu um péssimo exemplo de desonestidade, mostrando-se cúmplice na farsa infantil ao simular para a outra filha menor uma situação que não aconteceu.

Portanto, é compreensível que algumas crianças sintam certo incômodo ou desconforto ao ler esse texto. Afinal, ficariam com a nítida impressão de que também podem ser eventualmente ludibriadas pelo pai, assim como o foi a irmãzinha mais nova. Se até a pequenina foi capaz de denunciar a “embromação” da irmã, é possível que tenha interpretado a benevolência paterna como uma solidariedade no engodo.

Por outro lado, quando a professora considera corretas todas as respostas dadas pelos alunos, por entendê-las como meras “opiniões”, deixa-os entregues a um relativismo perigoso. O papel do professor é orientar seus alunos quanto às atitudes verdadeiramente éticas, e não abster-se de fazê-lo em prol de uma questionável pluralidade de opiniões, sobretudo quando mergulhadas no equívoco. Ademais, as perguntas elaboradas e propostas aos alunos suscitam apenas impressões e sentimentos, sem abordar o cerne da questão que reside precisamente na lição moral que deveria ser tirada da estória mediante um raciocínio correto. Dar ênfase a um subjetivismo relativista é a antítese de qualquer pedagogia.

Por fim, deixar os alunos com a impressão distorcida de que o bom pai seria aquele sujeito sentimental, que se desfaz em ternuras e mimos, e se submete aos caprichos da criança, sem que possa em contrapartida adverti-los, orientá-los, e eventualmente, quando erram, dar-lhes uma “bronca” enérgica, é dar à criança uma referência equivocada do que sejam os verdadeiros cuidados de um amor paterno ou materno.

Luciano Porciuncula Garrido é Psicólogo Clínico; exerceu cargo de Psicólogo Forense no TJDF e de psicoterapeuta no Hospital Universitário de Brasília; é Policial Civil e Especialista em Segurança Pública

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